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Sessão especial: “Lembrar para que não se repita!” com o filme Osvaldão.


Se as forças armadas continuam caladas, depois de 30 anos do término da ditadura civil-militar (1964/1985), a memória popular não silencia. Os motivos se configuram nas imagens deste “Osvaldão”, que a um só tempo traça o perfil e deslinda a epopeia do ex-tenente do Exército, militante comunista, guerrilheiro e estrategista militar Osvaldo Orlando da Costa (1938/1974), de Passa Quatro, interior de Minas Gerais, às matas do Araguaia, no Sul do Pará. E assim o insere na revolução popular do país.

O roteirista Vandré Fernandes e seus codiretores Ana Petta, Fábio Bardella e André Michiles usam a linearidade para estruturar a narrativa em que o documental se une à encenação para dimensionar a emblemática persona de Osvaldão. De família proletária, descendente de escravos, em criança percorreu a Estrada Real, por onde durante o império eram escoados ouro e mercadorias, fez estripulias e ganhou o mundo.

Nesta primeira parte, o quarteto de diretores usa imagens de documentários de época, recortes de jornais, fotos de Osvaldão e memórias da família e amigos de infância. Com isto recuperam os primórdios de sua formação de classe. Sua ida para o Rio de Janeiro dos anos 50 lhe permitirá ampliá-la na Escola Técnica Nacional, nas lutas de boxe, que o fizeram campeão pelo Vasco da Gama, ser tenente do Exército e despertar para os conflitos urbanos.

Formação foi na luta popular

É nesta segunda parte do filme que o quarteto estrutura seu despertar revolucionário. Começa por mostrar os crônicos problemas de transporte coletivo da então Capital Federal, que o levam a participar da organização dos movimentos populares e liderar suas primeiras ações de massa. A profusão de fotos, imagens, recortes de jornais, sustentam sua transição, alicerçada na formação teórica num grupo de estudo do marxismo, para a de militante do PCdoB em meados da década de 50.

Se na primeira parte, o quarteto usa um ator amador mirim para interpretá-lo nas cenas de quintal em Passa-Quatro, na terceira parte a expectativa em torno dele se consolidada. O homem a se materializar em cenas do documentário da Praga Filmes Pujikovna, na ex-Checoslováquia comunista, é sorridente, simpático, fala fluidamente o eslovaco e tem 1,92 de altura. Ali cursaria engenharia de minas, na Universidade de Praga, no início dos anos 60, e depois ainda iria à China.

Na quarta parte, o espectador se dá conta da importância de sua formação. O quarteto corta para a região Araguaia/Tocantins, no sul do Pará, onde ele chega em fins de 1966. Estará no centro dos conflitos políticos do Século XX. Auge da Guerra Fria (1945/1991), expansão da Revolução Cubana (1959), Guerra do Vietnã (1962/1975), lutas de libertação de Angola (1961/1974) e Moçambique (1964/1975), e movimentos pela emancipação da mulher e contra a opressão dos negros nos EUA.

Osvaldão se tornava vulto

Com variedade de recursos narrativos, ágil montagem, o quarteto situa o espaço da ação, rios, matas, lugarejos, mostrando a integração de Osvaldão com a floresta e seus moradores. Se na terceira parte, ele aparece por inteiro, agora é apenas o vulto, que se materializa em precisos momentos. Isto engendra a mística de se descorporificar ou se materializar quando menos se espera. Os próprios entrevistados, camponeses, índios, a reforçam, não sem surpresa e muito humor.

Por quase oito anos, ele construiu a imagem de amigo, disposto a ajudar os mais necessitados. Vivia do garimpo, esteve em Serra Pelada antes do boom do ouro e mapeou a região. Este trabalho lhe valeu quando, em 12/04/1972, 20 soldados do exército atacaram os guerrilheiros do PCdoB, em São Domingos. Por quase dois anos, liderou o Destacamento B, vinculado ao comando central da guerrilha, escapando ao cerco do inimigo.

No auge dos confrontos com as forças armadas, Exército, Aeronáutica e Marinha, enfrentou como os 69 guerrilheiros do PCdoB o ataque de 10 mil soldados, comandados pelos generais Vianna Moog e Antônio Bandeira. Em 04/02/1974 foi cercado e executado, mas seu corpo jamais foi encontrado, embora seu “companheiro mateiro” diga que o enterrou numa mata em Xambioá, Pará. É uma cobrança a ser feita às Forças Armadas.

Herdeiro de Zumbi, na história afro

Assim, a epopeia de Osvaldão dá continuidade à luta dos afros no Brasil. Segue a revolta dos escravos liderados por Zumbi (1655/1695), fundador da República de Palmares no sertão alagoano (1678/1710), para se opor ao colonialismo português. Três séculos depois, um descendente de escravos continua sua luta contra a opressão, agora burguesa- capitalista. Centrado em ampla pesquisa e elucidativos depoimentos, o quarteto amplia seu espaço na galeria dos grandes líderes revolucionários populares brasileiros.

Veja o trailer:




Texto: Cloves Geraldo, no Portal Vermelho

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