Header Ads

DIA DA TOALHA (OU: O ORGULHO NERD CONTEMPORÂNEO)


Segundo o Guia do Mochileiro das Galáxias, “a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido ao seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kafrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você — estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha ‘acidentalmente perdido’. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.

Daí a expressão que entrou na gíria dos mochileiros, exemplificada na seguinte frase: ‘Vem cá, você sancha esse cara dupal, o Ford Prefect? Taí um mingo que sabe onde guarda a toalha.’ (Sancha: conhecer, estar ciente de, ter relações sexuais com; dupal: cara muito incrível; mingo: cara realmente muito incrível.)”

Pouco após a morte de Douglas Adams — autor dos livros da saga do Guia — no dia 11 de Maio de 2001, um usuário de um antigo fórum chamado System Toolbox sugeriu que fosse feita uma homenagem ao renomado escritor duas semanas após seu falecimento, no dia 25. Inclusive um site (towelday.org) foi criado para promover o dia. Ele funciona até hoje, registrando as atividades de Dia da Toalha ao redor do mundo e pela internet (acessem o site e vejam o que aconteceu hoje).

Havia um debate se a homenagem deveria ser adiada para 42 dias após a morte de Douglas Adams (tendo em vista que 42 é a grande resposta para a vida, o universo e tudo mais — outro tema recorrente dos livros), mas essa história nunca foi além. Além do que, considerando que dia 25/05 também é celebrado por ser o dia em que Star Wars IV: A New Hope foi originalmente lançado nos cinemas, o Dia da Toalha caia como uma luva em conjunto com uma nova celebração consolidada ao longo dos anos: O Dia do Orgulho Nerd.

Nerd, de acordo com o Urban Dictionary (o melhor dicionário da Internet), é alguém cujo QI é maior que o peso — confiem em mim, nos países onde a medida de peso é a libra essa piada faz mais sentido — e estão entre as pessoas mais perigosas do mundo (pois elas foram inteligentes o suficiente para criar todas as armas letais da história). Também existem os geeks, um “fenótipo” de nerd com espírito mais comunitário — embora isso custe-lhes o elevado QI em boa parte dos casos. Mas independente das forças e fraquezas de cada um, o que une estes indivíduos é a paixão por assuntos no qual eles se identificam (independente se for ciências puras, tecnologia ou elementos da cultura pop) e a capacidade de analisar profunda e assertivamente suas paixões a ponto de perceber detalhes inimagináveis.

São alvos constantes de bullying e ostracismo social; pessoas normais geralmente consideram um desperdício ser tão apaixonado e analítico se essas habilidades não se refletem em alguma espécie de retorno concreto. Isso era bastante evidente nos anos 60 e 70, com o advento de novos ícones da cultura pop ganhando a atenção destas tribos, tais como Star Trek e Star Wars; o computador e o videogame; a renascença da Marvel e da DC (que existem desde os anos 40, mas ficaram muito mais populares durante esse período pós Revolução Cultural.) De que adianta aprender um idioma fictício ou dominar os códigos se isso não lhe dá nenhuma compensação material? Uma pessoa que não se importa com isso só pode ser um esquisitão. Um zé mané. Merece um cuecão. Ah, como foi viralizada essa linha de pensamento. Até hoje existe um estigma contra esses pobres coitados. Mesmo com o advento dos maiores nerds do mundo se tornando bilionários e dominando toda a estrutura administrativa e financeira, era difícil consolidar-se orgulhosamente como membro da comunidade sem ser ridicularizado pela maioria não-nerd. Nenhum “ainda vou ser seu chefe um dia” era capaz de conter o preconceito.

Daí, nos anos 2000, tudo mudou.

Primeiro, foi com a renovação da estética estereotipada do nerd/geek. Os produtos se tornaram mais atraentes (como o iPod e o iMac), e os serviços se tornaram mais intuitivos. Depois veio com as figuras da TV. Novas celebridades tomaram de assalto o mundo do entretenimento consolidando o gosto que outrora era nicho para as massas. The Big Bang Theory, por exemplo, foi uma pedra fundamental para essa revolução. Pelo fato do programa usar do humor e dos esteriótipos para subvertê-los e trazer à tona uma realidade desconhecida pelo consumidor médio, o mundo nerd começou a ser mais assimilado, a ponto de inclusive ameaçar a identidade que tantos nerds/geeks construíram para si ao longo dos tempos.

A quantidade de pessoas se proclamando nerds e repetindo “Bazinga” por onde passavam pra provar que eram nerds criou uma revolta entre muitos. Revolta essa que foi percebida por outras pessoas do cenário da cultura, e que com isso criaram mais uma revolução. E com esse mais recente advento, os nerds/geeks hoje podem se orgulhar de quem são, graças às suas paixões, coleções e análises, que os separam dos demais consumidores padrão.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo das referências.

Se você realmente é um nerd, vai entender aquela referência. Vai conhecer aquele personagem que ninguém conhece. E também vai rir daquele cameo do Stan Lee antes de todo mundo. E com isso criou-se uma nova tendência — um tanto quanto elitista, mas sem necessariamente criar um viés de “check your privileges” — de se tornar mais analítico e conhecedor de suas paixões. E a forma como essas análises e troca de conhecimentos se deu em conjunto com a revolução da Web 2.0 hoje criou um repertório infinito de oportunidades para se estudar, conhecer, se apaixonar e inclusive ganhar dinheiro.

Agora aquele cara que sabe de tudo de Star Trek pode fazer um canal no YouTube dedicado a isso. Aquele outro geek que é habilidoso no videogame pode transmitir ao vivo no Twitch. E aquele outro que cria teorias mirabolantes sobre o que vai acontecer no próximo filme dos Vingadores pode compartilhar isso no Facebook sem mais sofrer o risco de levar um cuecão.

Já faz um bom tempo que aquela música dos Seminovos foi lançada (aquela do “nerd de hoje é o x-y-z de amanhã”, “garota, encontre já o seu nerd”, blá-blá-blá. Mesmo os conceitos da música hoje estão um pouco ultrapassados — afinal o mundo nerd evoluiu muito desde então — mas a mensagem final continua intacta.

O mundo é nosso. A gente só deixa vocês pessoas normais pisarem nele.

Que a Força esteja com todos nós, e obrigado por todos os peixes.

Samuel Alves

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.