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A (maravilhosa e confusa) volta de Twin Peaks



A década de 90 começou com uma pergunta: quem matou Laura Palmer? A aparentemente doce e inocente garota da pacata cidade de Twin Peaks apareceu boiando no rio, enrolada em um saco plástico.
 
O mistério de seu assassinato revolucionou a televisão americana, com uma série criada por David Lynch e Mark Frost, que trazia uma história surrealista, que misturava e quebrava regras de narativa e gênero. No episódio final da segunda temporada, o espírito (?) de Laura Palmer (Sheryl Lee) disse ao agente especial do FBI, Dale Cooper (Kyle MacLachlan): "Te vejo novamente em 25 anos". É justamente com essa cena que retornamos, nos fazendo perguntar se o reboot sempre foi planejado ou apenas uma casualidade.


Os criadores da série retornam a história através da Netflix. Apesar de ser muito bom rever antigos personagens da trama, sempre surreais e caricatos, ainda assim, diferente dos inúmeros reboots realizados pela produtora, este parece estar menos preocupado com a nostalgia e mais interessado em mostrar toda a potência de Lynch em desgraçar nossas cabeças. O diretor, por sinal, também retorna para o mundo do audiovisual depois de onze anos longe das câmeras. 

A morte de Laura Palmer atravessou gerações. A primeira vez que entrei contato com a adolescente foi através do livro “O Diário Secreto de Laura Palmer”, que fez sucesso no começo dos anos 2000 entre os jovens brasileiros. Naquela época, eu não conhecia a série... Ninguém da minha idade conhecia, mas só foi preciso conversar com nossos pais ou pesquisar na internet para descobrir do que se tratava. Minha mãe comentava como ficara vidrada na TV para descobrir o mistério de Laura Palmer, em 1990. Não é muito difícil ter acesso aos antigos episódios, que foram distribuídos nas últimas décadas através de edições especiais de DVDs e estão disponíveis na internet. Duas décadas e meia depois, Laura Palmer está mais viva do que nunca.


Para quem não é acostumado com a série ou o universo lynchiano, já avisamos: não se preocupe se pensar “eu não estou entendendo nada” durante os dois primeiros episódios disponibilizados pela Netflix. Fica calmo, tá tudo bem. Ninguém está entendendo nada, nem críticos, nem os antigos fãs.

Alguns personagens continuam os mesmos, como se a cidade tivesse ficada presa em 1990, e fica bem fácil de identificar. Outros, temos que puxar na memória para tentar identificar. E muitos não faziam parte da história original, estão aparecendo pela primeira vez. Twin Peaks insere novos mistérios, boa parte da trama acontece fora da pequena cidade, em lugares como Nova York, Las Vegas e uma cidadezinha da Dakota do Sul. As ligações entre os núcleos só começam a aparecer no segundo episódio, e ainda assim, sem muitas explicações. 


Está em busca de respostas? Vamos tentar encontrá-las juntos, mas sem esperança que todas sejam respondidas. Algumas estão há mais de 25 anos sem explicação, e possivelmente,  Lynch não está muito interessado nisso. Apenas esqueça a forma que você costuma assistir televisão.

Twin Peaks  continua a mesma, presa no passado e a frente do seu tempo. Em determinado momento, um dos personagens pergunta a Cooper: “Estamos no passado ou no futuro?”. Assim como o personagem, a série levanta o mesmo questionamento. A resposta não é tão importante quanto a pergunta, a experimentação. Por isso, sente, coma um pedaço de torta e aprecia a estética, a loucura, a falta de sentido, os personagens antigos, os novos, os mistérios e Lynch.

A experiência continua tão insana e maravilhosa. 

Veriana Ribeiro, Cineclube Opiniões

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